 |
|
Lopes Sá |
As improvisações e desespero para se criar saídas e alternativas da comunidade bra-sileira fora do país podem gerar um caos generalizado onde pessoas, instituições e profissionais sem escrúpulos tentam se aproveitar dos incautos. Co-mo reagir diante de uma mídia marca-da pelo desalento, desequilibrada, com ênfase sensacionalista em más notícias, em permanente detrimento e omissão dos avanços nas comunidades que deveriam refletir. Ao buscar-se a saída, é preciso muita ética para lidar com o assunto. Mas o que é ética?
The Brasilians conversou com o Professor Dr. Antonio Lopes Sá, autor do livro “Ética Profisional”, já na sua 8ª Edição, e coloborador do The Brasilians. Ele acredita que a recente criação da ABI-Inter possa ser uma importante ajuda para os brasileiros na exterior se apoiarem em informações verdadeiras a respeito deles menos.
TB - No mundo atual, estamos vivendo uma crise ética?
LS - Embora não tenha elementos para afirmar em relação à globalidade, vejo que pelo menos no continente americano mui-tos são os arranhões aos preceitos éticos, es-pecialmente no que tange à falta de respeito para com os nossos semelhantes. Há sim, uma séria deficiência de “educação ética”.
TB - O que se deve na realidade entender por ética? Seria a mesma coisa que moral?
LS - Segundo meu entendimento, tal como tenho tratado em minhas obras e em conferências feitas em diversas locali-dades brasileiras e do exterior, as duas coisas não se confundem. A ética é uma ciência que tem por objeto o estudo do comportamento humano e por finalidade a virtude, esta como benevolência. A moral é o estudo dos hábitos ou costumes de um povo ou grupo humano. Nem tudo o que se acostuma a fazer e que é aceito por algu-mas pessoas é realmente o virtuoso.
TB - E porque a ética é então uma ciência?
LS - As ciências se fundamentam no estudo de relações entre acontecimentos, visando a conhecer a realidade das coisas. Não se limita a casos subjetivos, mas a generalidade, ou seja, ao que ocorre da mesma forma em todos os tempos e em todos os lugares. Não basta, por exemplo, que um fato aconteça em Montreal, pois, pode não acontecer em New Jersey no que tange ao comportamento pessoal. Um fato aceito em 1815 pode não o ser hoje em 2007. A ética considera fatos que, tanto no Canadá quanto nos Estados Unidos, quer em 1815 ou 2007, deveriam ter ocorrido sempre da mesma forma. A matéria cientí-fica, portanto, está condicionada a univer-salidade e a perenidade.
TB - Cite um exemplo, professor.
LS - Devemos respeitar-nos e igual-mente respeitar ao nosso semelhante e este é um princípio de virtude que a Ética aco-lhe como um axioma. É dever ético, em decorrência, por exemplo, não utilizar-se de bens alheios sem que exista o consen-timento do proprietário. A virtude exige o respeito a quem detêm a posse e o direito de uso. Isso ocorre desde as primitivas so-ciedades. O uso comum se restringe a de-terminadas coisas. Podem, sim, existir uti-lidades de natureza comunitária, como são as ruas, mas aboletar-se em um lar sem o consentimento do chefe da família é um desrespeito, fere a um princípio de virtude. Quando em exercício de função pública delegada por vontade popular, é obrigação defender o interesse da comunidade com honradez e visando ao bem estar da mesma.
TB - Como então conhecer todos es-ses deveres a partir da ética como ciência?
LS - O estudo se inicia pelo conheci-mento dos objetivos e passa a seguir ao daquele da “consciência ética”. Ou seja, procura-se explicar sob que condições o ser humano constrói os seus modelos ou paradigmas de comportamento. Para anali-sar hoje seus fenômenos a ética parte das bases das heranças genéticas, passando pela educação no lar, na escola e as influ-ências vividas no mundo social e que pe-sam sobre cada indivíduo. Como se pensa é fruto do que se recebe, governado pelo que se consegue ter de domínio sobre as informações percebidas.
TB - O senhor responsabiliza estão a informação como formação de cons-ciência ética?
LS - Sem dúvida alguma. Somos um mosaico dos que sobre nós influem e influíram. Hoje se chega à ousadia de crer que em nossa constituição genética já re-cebemos um “programa” de modelos, toda-via, são as informações recebidas no lar, na escola, pelos veículos diversos as que vão constituir o nosso acervo mental. Nosso pro-cedimento é quase sempre fruto do que pen-samos. Ou seja, vivemos do que pensamos.
TB - Quer isso dizer que a imprensa se insere nesse contexto?
LS - Sem dúvida alguma, tanto jorna-listas quanto escritores, professores e pais, artistas e compositores, todos são respon-sáveis pelo que produz instrumentação da consciência ética, esta que determina o comportamento pertinente. Os veículos de difusão, todavia, são significativamente responsáveis. A tendência do povo é crer no que se noticia. Essa a razão pela qual quem almeja perpetuar-se no poder pro-cura controlar a informação. Percebe-se, inclusive que há uma padronização de in-formes ao feitio de interesses políticos quase sempre.
TB - O senhor quer dizer que para uma boa consciência ética é preciso que existam boas difusões?
LS - Sem dúvida alguma. Mesmo sa-bendo que o noticiário negativo muito atrai o público, entendo que um periódico, esta-ção de TV ou de rádio, os que se utilizam da Internet para difundir, devem buscar uma linha virtuosa. Mesmo sem sonegar notícias desagradáveis, de violência, é preciso utili-zar-se, para ser ético, de uma técnica amena, sem sensacionalismo, dando prevalência às coisas positivas e minimizando as negativas. Valorizarem-se, como se faz agora no Bra-sil, mais os atos de corrupção que as gló-rias científicas e literárias, mais os desas-tres que as conquistas sociais e econômi-cas, são em meu entender atitudes aéticas. Explorar o lado negativo das coisas difun-dindo o pior é contribuir para o aumento de sentimentos viciosos.
TB - Acredita o senhor que seja possível mudar o quadro atual? O que acon-selharia como cientista da Ética?
LS - As modificações sempre se operam, ainda que algum tempo seja reque-rido. O processo da civilização é evolutivo porque esta é a lei que parece reger todo o Cosmos. A mudança, entretanto, muito de-pende de um sistema educacional que deve fluir através de lideranças conscientes. Tal educação abrangeria desde a penetração nos lares com noticiários de boa qualidade até as escolas com a melhor formação de profes-sores e programas que incluíssem noções de Ética já nos cursos elementares, pros-seguindo constante até a pós-graduação. O importante é iniciar logo esse processo.
TB - Há uma luz no fundo do túnel?
LS - Penso sempre positivamente, pois creio na energia que emitimos como fonte de realização das coisas materiais. Acredito, por exemplo, que a instituição que se criou recentemente na Flórida, aglutinando toda a imprensa brasileira comunitária à ABI - Inter seja um passo a frente que pode dar incremento a uma revolução dentro da comunidade brasileira que vive fora do Brasil. Num contexto mais abrangente, se a elite do jornalismo estiver de acordo em liderar um movi-mento reversivo já haverá esperança. A união através da entidade referida é essa luz no fundo do túnel.
TB - O senhor acredita que no caso da comunidade brasileira e os veículos que a apóia poderia usufruir de algum benefício, alguma melhoria?
LS - Para se chegar a 5.000 deve-se começar pelo número 1, ou seja, não importa o tamanho do problema se começamos por tentar de nossa parte a resolvê-lo. A entidade sozinha teria dificuldades imensas, mas se conseguir arregimentar outros simpatizantes em pouco tempo formará uma corrente. As revoluções se iniciam com pequenos grupos. Não devemos esquecer-nos dos exemplos da História. O importante é crer e agir.
Artigo cedido gentilmente pelo The Brasilians Newspaper, NY